12 de nov de 2012
10 de out de 2012
13 de jun de 2012
Nov@to na Faculdade de Letras da UFMG
Wanderson Nov@to nasceu em 1977, em Belo Horizonte. Traz em seus versos temas ligados aos problemas da periferia, a partir de um olhar que reúne arte e crítica social. “Meus poemas representam meu ponto de vista sobre a exclusão social, a questão racial e de classe, esse divisor que há dentro da sociedade, tanto em Belo Horizonte quanto em qualquer capital”, afirma o poeta.
6 de jun de 2012
ARTISTAS SE UNEM PARA 'COMBATER' PICHAÇÕES
25 de mai de 2012
23 de mai de 2012
BIENAL DO LIVRO DE MINAS 2012
2 de abr de 2012
13 de mar de 2012
23 de jan de 2012
Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira).
16 de dez de 2011
29 de ago de 2011
Manoel de Barros
Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.
...
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.
9 de ago de 2011
Leonardo de Magalhaes
Ou
Voyage au centre de mon ombilic
Viaje al centro de mio ombligo
Viaggio al centro del mio ombelico
A Journey to the Center of my Navel
Die Reise zum Mittelpunkt meines Nabels
Foi quando me perguntaram se eu pensava
que o meu umbigo era o centro da terra,
e prontamente respondi que sim,
é o centro da terra, da galáxia e do universo.
O meu umbigo, mon ombril, nada mais
é do que the navel of the world,
agora desbravado e localizado, catalogado
l'ombilic du monde, o próprio, aqui a
poucos centímetros de latitude norte,
acima do fálico o omphalus,
redondo e estufado, o meu, mein Nabel,
o que sobrou do cordon ombilical caído
que ligava-me ao mundo, aos ancestrais,
para que eu me soltasse todo orgulhoso,
crendo-me fielmente no epicentro das órbitas
a razão final da existência do mundo,
o ápice da geração, criação, evolução,
e mio ombligo cavaleiro-andante
a lutar bravamente contra moinhos-gigantes
e mio ombelico, personagem à procura
de um Autor dedicado e atencioso,
e mon ombilic a percorrer mil léguas
acima dos telhados e no fundo dos porões
e mein Nabel arrogante e prussiano
proclamando a aristocracia lírica
e my navel britanicamente ensaboado
e cumpridor de deveres e horários.
O umbilicum mundi que carrego
na estética pele de cosméticos
lascivamente acima das entranhas
anatomicamente exposto à altura abdominal
entre estômago e alça superior intestinal
assim exibido, desnudo, tatuado
por mil piercings perfurado,
verdadeiro nombril du monde,
pululando de imodéstia e orgulho
em aristocrática rebeldia
acusando os falsos democratas,
os demagogos populistas, os plebeus
exaltados em sound and fury,
dizendo nada além da mesmice,
enquanto o meu Omphalus se cala,
altaneiro, Übermensch, hiperbóreo,
um condor a voejar acima da fuligem,
do fog londrino do lugar-comum
a névoa opaca do senso-comum
meu umbilicum mundi pregando ordem,
positivista, Ordnung et Progress,
atacando bruxinhos e duendes,
figuras mitológicas e santarrões públicos,
pastores conduzindo suas ovelhas,
queimando fotos de presidenciáveis,
santinhos de corruptos em reeleição,
pseudo-revolucionários de plantão!
Meu umbilicum mundi solitário
desdenhando as seduções de outdoors,
as mulheres pintadas em liquidação
os homens de academia malhação,
ignorando as promoções do mercado,
as putas glamourosas de aluguel,
as garotas-sorriso da propaganda,
recusando os amores de silicone,
tímido perseguidor de donzelas,
o nobre devoto de Musas,
amando ardentemente uma musa
por meros seis meses breves
e nutrindo uma mágoa louca
pelo resto da pobre existência!
Meu umbilicum mundi literato
esnobando os fiéis leitores
mas sempre esperando atenção
zombando das nossas autoridades
mas sempre exigindo Ordem
cortejando a Esquerda e suas críticas
mas respeitando a Direita e suas crueldades
evitando discutir religião, futebol,
música, opção sexual, estéticas,
política partidária, corrupção endêmica,
decadência familiar, taxa de juros,
as mentiras do jornal nacional!
Meu umbilicum mundi sempre na ativa
em qualquer voz passiva
admirando as babéis de palavras,
os clássicos, os bardos, as rimas,
os arquitetos de poemas,
os fabricantes de mundos,
os fabulistas e mentirosos compulsivos;
invejando poliglotas, estudantes,
diplomatas, funcionários públicos,
professores, oradores, doutores!
Meu umbilicum mundi do contra
ironizando milícias, rebeldes,
os marxistas de carteirinha,
os fascistas saudosistas;
desprezando pastores, clérigos,
condutores de almas, curadores;
afastando aduladores e sorrisos,
iconoclastas depressivos,
irônicos soturnos, pretensiosos,
vampiros pós-modernos,
niilistas em torres de marfim!
Meu umbilicum mundi falastrão,
tecendo fanfarronices em manifestos,
cartas abertas e leituras atentas,
invocando os últimos bárbaros
para a última invasão do Império
quando a TV estiver desligada
quando a programação sair do ar
e os exércitos de desocupados,
subempregados, alienados,
explorados, dominados,
embriagados, drogados,
doutrinados, humilhados,
se unirem na cova comum
do fim sangrento das Utopias
na cova comum do omphalus,
o centro profundo do meu umbigo!
Jun/09
Leonardo de Magalhaens
http://leoleituraescrita.blogspot.com/
20 de jun de 2011
Wally Salomão (1944/ 2003)
Por que a poesia tem que se confinar?
às paredes de dentro da vulva do poema?
Por que proibir à poesia
estourar os limites do grelo
da greta
da gruta
e se espraiar além da grade
do sol nascido quadrado?
Por que a poesia tem que se sustentar
de pé, cartesiana milícia enfileirada,
obediente filha da pauta?
Por que a poesia não pode ficar de quatro
e se agachar e se esgueirar
para gozar
– carpe diem! –
fora da zona da página?
Por que a poesia de rabo preso
sem poder se operar
e, operada,
polimórfica e perversa,
não pode travestir-se
com os clitóris e balangandãs da lira?
14 de abr de 2011
Vinícius de Moraes (1913 / 1980)
A HORA ÍNTIMA
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
...
OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o whisky do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção
15 de mar de 2011
Carlos Drummond de Andrade (1902 / 1987)

A Verdade
A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão, sua miopia.
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
A Língua Lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
31 de jan de 2011
Jorge de Lima (1893 / 1953)

(Jorge de Lima em caricatura de Mendez, 1946)
POEMA DO CRISTÃO
Porque o Sangue do Cristo
jorrou sobre meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho todos os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, crendo na vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como Sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo através de toda a escuridão do mundo,
porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe,
cordeiro comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura e de estamenha,
sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!
E, sendo loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!
...
ANJO DALTÔNICO
Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.
Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.
Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.
Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha.
19 de jan de 2011
Walt Whitman (1819 / 1892)

POETAS DE AMANHÃ
Poetas de amanhã: arautos, músicos,
cantores de amanhã !
Não é dia de eu me justificar
E dizer ao que vim;
Mas vocês, de uma nova geração,
Atlética, telúrica, nativa,
Maior que qualquer outra conhecida antes
- levantem-se: pois têm de me justificar !
Eu mesmo faço apenas escrever
Uma ou duas palavras
Indicando o futuro;
Faço tocar a roda para frente
Apenas um momento
E volto para a sombra
Correndo
Eu sou um homem que, vagando
A esmo, sem de todo parar,
Casualmente passa a vista por vocês
E logo desvia o rosto,
Deixando assim por conta de vocês
Conceituá-lo e aprová-lo,
A esperar de vocês
As coisas mais importantes.
...
NÃO ME FECHEM AS PORTAS
Não me fechem as portas, orgulhosas
Bibliotecas,
Pois justamente o que estava faltando
Em tuas prateleiras apinhadas,
É o que venho trazer
-mal acabando de sair da guerra,
um livro escrevi:
pelas palavras do meu livro, nada;
pelas intenções, tudo !
Um livro à margem,
Sem nada a ver com os restantes,
E que não pode ser sentido só
Com o intelecto.
Vocês, porém, com seus silêncios latentes,
A cada página hão de estremecer
Maravilhadas.
...
Poemas de Walt Whitman
Trad.: Eduardo Francisco Alves
Geir Campos
30 de nov de 2010
25 de out de 2010
Lawrence Ferlinghetti
POPULIST MANIFESTO No. 1
Manifesto Populista
Poetas! Deem o fora de seus gabinetes,
abram suas janelas, abram suas portas,
vocês já ficaram muito tempo no fundo
de seus mundos fechados.
Venham, desçam
de suas Colinas Russas e Colinas Telegráficas,
suas Colinas do Farol e suas Colinas da Capela,
seus Montes Analógicos e Montes Parnasos,
desçam de suas colinas e montanhas,
fora de suas tendas e domos.
As árvores são derrubadas
e nós não voltaremos para as florestas.
Não há tempo para ficar sentado
quando o homem queima sua própria casa
para assar seu porco
Nada de cantar Hare Khrishna
enquanto Roma queima.
San Francisco está queimando,
a Moscou de Maiakovski está queimando
os combustíveis-fósseis da vida.
Noite e o Cavalo aproximam-se
devorando luz, calor e poder,
e as nuvens têm calças.
Não há tempo para o artista se esconder
acima, além, debaixo dos cenários,
indiferente, aparando suas unhas,
refinando-se fora da existência.
Não há tempo para os nossos joguinhos literários,
não há tempo para nossas paranóias e hipocondrias,
não há tempo para medo e náusea,
há tempo somente para luz e amor.
Temos sido as melhores mentes de nossa geração
destruídas pelo tédio das leituras poéticas.
Poesia não é uma sociedade secreta,
muito menos um templo.
Palavras secretas e cânticos não interessam.
A hora de profetizar já passou,
o tempo de entusiasmo chegou,
um tempo para entusiasmo e alegria
sobre o vindouro final
da civilização industrial
que é péssima para a Terra e o Homem.
É hora de olhar pra fora
na completa posição de lótus
com olhos bem abertos,
É hora de abrir suas bocas
com um novo discurso aberto,
É hora de comunicar com todos os seres sensíveis,
Todos vocês ‘Poetas das Cidades’
pendurados em museus incluindo a mim mesmo,
Todos vocês poetas de poetas escrevendo poesia
sobre poesia,
Todos vocês poetas de oficinas de poesia
no coração farrista da América
Todos vocês arrombados Ezra Pounds
Todos vocês remotos estanhos excluídos poetas,
Todos vocês estressados poetas do Concreto,
Todos vocês poetas lambedores-de-cu,
Todos vocês poetas de toilete gemendo com grafite,
Todos vocês gigantes de trem classe A que nunca gingam
em vasos de plantas
Todos vocês da serraria nas Sibérias da América,
Todos vocês irrealistas sem-olhos,
Todos vocês auto-ocultados supersurrealistas,
Todos vocês visionários de quarto e agitadores-propagandistas
de gabinete,
Todos vocês poetas Groucho Marxistas
e camaradas da classe-desocupada
que descansam o dia todo e discutem sobre o proletariado,
Todos vocês católicos anarquistas da poesia,
Todos vocês Black Montanhistas da poesia,
Todo vocês bucólicos Brahims e Bolinas de Boston,
Todos vocês mães-reclusas da poesia,
Todos vocês irmãos-zen da poesia,
Todos vocês amantes suicidas da poesia,
Todos vocês cabeludos professores da poesia,
Todos vocês resenhistas de poesia
bebendo o sangue do poeta,
Todos vocês Polícia da Poesia –
Onde estão as selvagens crianças de Whitman,
onde as grandiosas vozes se expressam
com um sentido de doçura e sublimidade,
onde a grandiosa nova visão,
a grandiosa visão-mundial,
a elevada canção profética
da imensa terra
e tudo o que canta nela
e nossa relações com ela ?
Poetas, desçam
para as ruas do mundo outra vez
E abram suas mentes e olhos
com o antigo deleite visual,
limpem suas goelas e falem,
Poesia está morta, vida longa à poesia
com olhos terríveis e força de búfalo.
Não esperem a Revolução
ou que aconteça sem vocês,
Parem de murmurar e falem alto
com uma nova poesia ampla
com um nova comum-sensual ‘superfície pública’
com outros níveis subjetivos
ou outros níveis subversivos,
um afinado garfo no ouvido íntimo
a golpear sob a superfície.
De seus próprios suaves Eus ainda cantam
Ainda completo ‘a palavra em massa’
‘Poesia o comum condutor
para o transporte do público
aos lugares mais elevados
que outras rodas podem conduzir.
Poesia ainda precipita-se dos céus
em nossas ruas ainda livres.
Eles não ergueram as barricadas, ainda,
as ruas ainda vivem com as faces,
amáveis homens e mulheres ainda caminham,
ainda amáveis criaturas por todos os lugares,
nos olhos de todos o segredo de todos
ainda enterrados lá,
as selvagens crianças de Whitman ainda dormem lá,
despertam e caminham livremente.
Trad. Leonardo de Magalhaens
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1 de out de 2010
André Carneiro
QUÂNTICA REALIDADENa pequena morte
ressuscito o mundo estranho
da minha cabeça.
Sou o mandarim no sonho da borboleta.
Vivo a irrealidade dos fatos
sem a memória acordada.
Neste próximo milênio
faço 15 bilhões de anos.
Ainda tenho na ponta do dedo
um átomo girando do big-bang.
A cobra,
desesperada
com a falta dos braços,
abraça Eva com o corpo inteiro.
Os avós peixes não se lembram
quando saíram da água.
Não há mais opostos:
real e imaginário,
passado e futuro,
vida e morte.
As palavras caíram
no lago global do esquecimento,
a quântica relatividade dança conosco
no espaço curvo deste planeta redondo.
do livro ainda inédito Asas da Sobrevivência

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