22 de mar de 2008

Carlos Vicente - 1981

Carlos Vicente Coutinho Neto, paulistano, Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, advogado militante na área cível e empresarial.
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Iniciou-se na Poesia aos 13 anos de idade, quando foi acometido por um quadro de depressão nervosa e crise existencial, que perdurou durante toda a sua adolescência.
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Em 1999, publicou o livro “Contos”, pela Editora Nativa. No ano seguinte, participou da Antologia “Romantika” (2000), também por esta Editora.

Também por este tempo, Carlos converteu-se ao cristianismo protestante, sendo que, a partir de então, foi encontrando paulatinamente as respostas para os anseios e males de sua alma.
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Sua poesia, que antes apresentava ênfase no desespero e na desilusão, passou a ter enfoque nitidamente religioso e etéreo.
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Também é autor de um compêndio de versos, por ele intitulado “O Cavaleiro Negro: Poesia Completa de Adolescência (1994-2004)”, que ainda aguarda publicação.
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A Poesia de Carlos Vicente se divide em duas fases distintas: a primeira, que vai dos seus treze aos dezoito anos de idade, apresenta um caráter nitidamente prosaico – até certo ponto prolixo – com muitas referências a autores clássicos e profunda influência de poetas melancólicos de antanho, como Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Lord Byron e Charles Baudelaire. O pessimismo renitente também pode ser apreendido em seus contos, profundamente influenciados por Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca e Nelson Rodrigues.
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Já a segunda fase, iniciada aos dezenove anos de idade, apresenta características muito distintas, tais como a sutileza, o gosto pelo sucinto e pelo lapidado, e a temática cristã, repleta de metáforas teológicas e filosóficas. Nesta fase, são profundas as influências de T.S. Eliot, W.B. Yeats, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Bonfim e Octavio Roggiero Júnior.
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Após estes dois “surtos poéticos”, Carlos parece ter cessado temporariamente sua escrita de natureza artística e tem se dedicado mais a textos técnicos em sua área de atuação profissional, como o artigo “Dilemas Históricos do Procedimento Ordinário”, publicado no site http://www.migalhas.com.br/, em 06 de novembro de 2006.
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PASTO

Eu vi mulas mastigando
A vida inteira eu vi à minha volta mulas mastigando
A vida toda eu amei mulas mastigando
A vida toda eu odiei mulas mastigando
A vida toda entre mulas mastigando

Então um dia eu quis experimentar outro capim
De colinas mais altas
E tentei subir
E martelaram meus cascos ao chão
E eu não quis mais o velho capim
E vomitei
E me recusei a ruminar o regurgitado
E as mulas perderam a paciência e deram coices
Até que se cansaram

Então eu fugi, de montanha em montanha
Até que alcancei o mais alto e distante monte
De lá vi coisas de que gostei e desgostei
Tentei voltar e não mais era possível

Então vi outros mastigando em montanhas ainda mais altas
Que me acusaram de ser apenas uma mula mastigando
E eu comecei a pular e a me apoiar sobre as patas traseiras
E me disseram que eu nunca poderia subir mais
Mas que um dia passou um homem por aí colhendo mulas
E as colocou para pastar acima das nuvens

E eu achei o máximo aquilo e gritei para os lá de baixo
Afinal, mulas são híbridos
Mestiços de jumento com cavalo
(Enquanto uns empacam, outros correm demasiadamente afobados...)
Mas não me ouviram
Ou ouviram e subiram tão pouco...
Ou vomitaram tanto que adoeceram e morreram...

E lá eu fiquei
Sempre sozinho
Esperando
Mastigando e chorando
Chorando e mastigando.


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INTERMEZZO APASSIONATO

Por vezes a sombra de um fumo transparente
Cria carne, luz e presença
Por que assim permaneces para sempre
Calada, assustada, incrédula, indecifrável?
Para aqueles que preferiam esquecer, não ouvir teu nome
Não roçar tua pele com perispírito,
Corpo feito de Nada e de Vazio que nunca te encontrará.
Vivendo num porvir indefinível
Se a vida poderá um dia ser suportável
Ou desistir de tua desistência
Na terra dos mortos de mim mesmo:
No céu a colher tua lágrima e teu gozo.
És fotografia partida, vento de espinho de rosa que corta,
Eterno espinho a fazer sangrar meu rígido peito covarde,
Fôrma e forma que molda circunstâncias tristes,
Deixas-me sem saber explicar o que senti, sinto, sentirei,
Ao toque do anel de outro ser masculino em teus dedos de eternidade,
A música soará mais triste e estrondosa do que nunca,
Como só soa nas maternidades, nos casamentos e nos funerais;
E um dia a menos se contará em minha vida, para meu proveito.
Talvez tua visita fantasmagórica a cada dia e a cada noite
E minha morte prematura ou tardia demais
Revele de meu ser tão cansado, tão Carlos,
Uma sina...


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SIMÃO É PEDRO

Oh, América Latina!
Teu vestido é comprado a sangue.
Teus filhos são bastardos.
Tua mãe é solteira e sifilítica.
E quiseram que tu trabalhasses
Nas ruas, de engraxate.
Nos palcos, de mambembe.
Nos aterros, de mendiga.
Nas alcovas, de biscate.
Ah, Simão Bolívar
Ah, Dom Pedro
Antes de apóstolos
Foram utópicos e egocêntricos;
Mentiram para nós
Os círculos concêntricos -
As três pessoas da Trindade Terrena:
O Pai, que é Tio e se chama Sam.
A Mãe, princesa Europa raptada por Zeus.
O Espírito, do Sol Nascente de Shogum-San.
Todos uma enorme blasfêmia contra Deus!
Tens inda uma irmã, asiática, aidética
Que de tão fechada, se abriu ao feitor;
E um irmão, faminto, fratricida, de tez desértica
Que se estende do Nilo ao Bojador.
E com os irmãos mais novos do Sul,
Cercados de mares por todos os lados,
Formam uma linda família feliz,
(Mas só no porta-retratos!)

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PREGAÇÃO

Eu quero ler os Salmos às andorinhas
Para que elas levantem vôo
E digam aos quatro cantos do mundo
Quem é o Senhor.
Eu não quero
Que os Estados Unidos da América
Façam isso no lugar delas!


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LUGAR INCOMUM

A cadeira de balanço
Eu coloquei no bosque das folhas secas.
As letras que despencaram dos livros
Eu guardei numa caixinha de música,
Cuja bailarina de papel
É minha namorada
E deusa das ameixas mortas.


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CARTAS INGLESAS

Lo! thus, by day my limbs, by night my mind,
For thee, and for myself no quiet find.
SHAKESPEARE


Eu vejo cortinas de fumaça
Desfazendo-se pela cidade
Duendes brincando com angústias
Como pássaros livres

E chove continuamente
Talvez desesperos se calem
O tempo está perdido
As horas se quebram

O tempo é pecado sem cura
A vida, um rio de lágrimas e narcóticos
Lembranças amargas são traumas
Lembranças alegres, saudade

O que fui era sou seria serei nunca serei
Mesclam-se na tormenta
Deste mar de náufragos
Que é o coração solitário

Talvez o sábio tenha errado
O anjo precipitou-se das alturas
Uma menina chora em silêncio
Uma boneca de porcelana partiu-se contra o chão

A dama de negro chama pelos anciãos
O protetor carrega almas para a luz
Os amantes quebram a ordem natural das coisas
Ousam sonhar com eternidade em suas prisões de carne

Os deuses escolhem e jogam
Estátuas de Ártemis ganham vida
A pedra ganha forma
Liberta su’alma nas mãos do escultor

A verdadeira rosa nunca morre:
Viva, oferta aroma e beleza
Morta, é alimento para o solo
Estrada de cascalhos circundada por frondosos jardins

Mas os seres insistem
Como quem se entrega à paixão ou ao carrasco,
Por ilusão ou melancolia,
A vida prossegue, como há-de ser Hades

Guerras, revoluções e atentados
Golpes de Estado e atos institucionais
E outras cousas mais
Que não têm nome mas que machucam

Será que agora a alquimia dos planetas repousa?
E o quimérico sonho é acalentado por Daugi?
As notas do piano são tristes
Não, não me faça ouvi-las novamente.

Será que em algum lugar
Uma princesinha chora?
Sua senda se perde no abismo
Suas lágrimas se perdem na chuva
Não se pode correr para os braços de alguém...

Uma formiguinha atravessa as quatro dimensões
Ela espera por minha misericórdia
Ela me pede para abandonar minha arte...
Há uma formiga morta em páginas manchadas de sangue!

Dorme, incauto pungente
Dorme nos braços dos teus
Dorme, Carlos Vicente
Dorme, pelo amor de Deus!

A cátedra dos poetas é tão triste!
Shakespeare tenta me ensinar algo
Como obsessão e loucura
T.S. Eliot olha-me com jeito sisudo
Emily Brönte corre pelos infinitos Wuthering Heights
George Gordon Byron embriaga-se de palavras e mulheres
Bram Stocker e Mary Shelley empunham as pás
Tentam desenterrar os corpos da Abadia de Westminster
Charles Dickens só espera repousar
Assim como Robert Browning
As ninfas do Tâmisa precisam flutuar perante o Parlamento
Mas a Inglaterra é tão triste!

E viajando com Jonathan Swift
Morrendo nas Highlands da Escócia
Nas ruas de Belfast, todo o Reino em ruínas,
Nos pubs londrinos de espíritos errantes
Eu me redimo!

Eu preciso terminar meu poema
Preciso preciso preciso
E preciso fugir
Mas está chovendo tanto hoje...


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O Mar

O mar azul é eterno sob a abóbada celeste
É um canto bêbado da ressaca das vagas
Quando as ondas se confrontam em gotas alvoroçadas
E respingam num tilintar confuso, para estilhaçar pedras costeiras.
O mar é monotonia,
Pelo vaivém das marés sempre iguais
E pelo barulho que nunca cessa;
O mesmo chiado da água que rebenta
Igual se ouve no ruído das conchas,
Que em seu interior se escondem os mistérios do fundo do mar...
As correntes se formam em rios caudalosos
Sufocam a luz, afogam os faróis
Onde morre o Sol dourado
Apagando o próprio brilho para vir o anoitecer
Onde resplandece num céu tombado pela escuridão
A Lua que te faz prateado!
E se pudesses falar, quantas histórias poderias contar!
De heróis que ousaram desbravar-te:
Os gregos para o comércio, os troianos para a guerra,
Os vikings para as pilhagens, os lusos para as descobertas.
Em embarcações frágeis ou imponentes, em tua fúria ou calmaria,
Nas tuas águas eternas e imensas, e salgadas para abrigar
Peixes vivazes, gigantes baleias, ferozes tubarões,
Horrendos crustáceos, torpes moluscos, e o colorido exuberante
Dos recifes de coral, das pérolas ricas dentro das ostras.
Os pequenos barcos dos pescadores navegam até sumir no infinito,
Os grandes navios flutuam numa paisagem pitoresca e tão bela,
Enquanto as gaivotas sobrevoam o ar umedecido de maresia.
Em tuas profundezas as plêiades vêm se banhar
Adentrando o reino intocado de Netuno
Que esbraveja e resmunga em seu trono de algas,
Debaixo de sua barba o tesouro escondido
De naufrágios e miragens, visões antigas do Oceano.
Chega Anfitrite conduzida pelos delfins,
Os golfinhos são seus servos e puxam seu carro de madrepérola.
Desfilam as Nereidas, tão lindas, montadas em cavalos-marinhos,
Rodeando o pobre gigante apaixonado Tritão,
De rude feiúra quase monstruosa.
Mas lá em cima, longe dos mundos subterrâneos fantásticos,
E do poder do tridente do deus marinho,
Tudo permanece normal, continua sempre...
O homem aprendeu a respeitar-te e temer-te,
porque tu és, ó mar, espelho de todo o universo!

11 de mar de 2008

Alice Ruiz - 1946

Já vai longe nas folhas amassadas do calendário aquela tarde em que cometi o que posso chamar de doce desvario. Já havia descoberto Leminski, mas, um outro nome mexia comigo: Alice Ruiz. Então, entrei no site oficial da poeta e fiquei horas ali me deliciando. Antes de sair, arrisquei um remendo, misto de haicai e poetrix, completamente despretensioso: ah se o mundo ruísse / e toda poesia / transbordasse Alice. E fui embora. No outro dia, qual não foi minha surpresa ao ver sua resposta na minha caixa de e-mail. Ela adorou o poeminha, e, na ocasião estava em férias pelo nordeste e pretendia conhecer Maceió. Resumo: nos encontramos e foi verdadeiramente mágico ouvi-la falar sobre “o Paulo”, o Quintana; suas parcerias na música, principalmente sobre o seu cd Paralelas com Alzira Espíndola. Falamos de Machado, Chico Science, Mia Couto, e amenidades numa pracinha à beira-mar. Assim é Alice, poesia e doçura juntas. E fechando os desvarios, fiz um poema que lhe enviei como fotografia do que vi: você é um doce / como se disse / e eu pensei que fosse / apenas maluquice / acreditar que um dia / uma praça vazia / se encheria de Alice.


Alice Ruiz nasceu em Curitiba, PR, em 22 de janeiro de 1946.
Começou a escrever contos com 9 anos de idade, e versos aos 16. Foi "poeta de gaveta" até os 26 anos, quando publicou, em revistas e jornais culturais, alguns poemas. Mas só lançou seu primeiro livro aos 34 anos.
Aos 22 anos casou com Paulo Leminski e pela primeira vez, mostrou a alguém o que escrevia. Surpreso, Leminski comentou que ela escrevia haikais, termo que até então Alice não conhecia. Mas encantou-se com a forma poética japonesa, passando então estudar com profundidade o haicai e seus poetas, tendo traduzido quatro livros de autores e autoras japonesas, nos anos 1980.

Alice publicou, até agora, 15 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil, que você pode conhecer. Compõe letras desde os 26 anos - a primeira parceria foi uma brincadeira com Leminski, que se chamou "Nóis Fumo" e só foi gravada em 2004, por Mário Gallera. A poeta tem mais de 50 músicas gravadas por parceiros e intérpretes. Está lançando, em 2005, seu primeiro CD, o Paralelas, em parceria com Alzira Espíndola, pela Duncan Discos, com as participações especialíssimas de Zélia Duncan e Arnaldo Antunes.


Antes da publicação de seu primeiro livro, Navalhanaliga, em dezembro de 1980, já havia escrito textos feministas, no início dos anos 1970 e editado algumas revistas, além de textos publicitários e roteiros de histórias em quadrinhos. Alguns de seus primeiros poemas foram publicados somente em 1984, quando lançou Pelos Pêlos pela Brasiliense. Já ganhou vários prêmios, incluindo o Jabuti de Poesia, de 1989, pelo livro Vice Versos.



Que importa o sentido se tudo vibra?




minuto a minuto
quis
um dia
todo azul
no teu dia
meu querer
quero crer
azulou
teu dia a dia
tudo
que podia




ainda me viro
e me vejo
pronta a te chamar
a te contar
que aprendi hoje
coisas que você soube

ainda te vejo
em cada bicho
em cada pensamento
me surpreendo olhando
com teus olhos de pesquisa
e o que vejo
vira beleza




lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber