29 de ago de 2011

Manoel de Barros

Desenho: Manoel de Barros


“Só quem inventa é dono.”
...
A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei. Meu fado é o de não entender quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não cultivo conexões com o real. Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro, poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas. Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei muito emocionado e chorei. Sou fraco para elogios.”
...


Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.


...


Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.

9 de ago de 2011

Leonardo de Magalhaes




Viagem ao Centro do meu Umbigo

Ou
Voyage au centre de mon ombilic
Viaje al centro de mio ombligo
Viaggio al centro del mio ombelico
A Journey to the Center of my Navel
Die Reise zum Mittelpunkt meines Nabels

Foi quando me perguntaram se eu pensava
que o meu umbigo era o centro da terra,
e prontamente respondi que sim,
é o centro da terra, da galáxia e do universo.
O meu umbigo, mon ombril, nada mais
é do que the navel of the world,
agora desbravado e localizado, catalogado
l'ombilic du monde, o próprio, aqui a
poucos centímetros de latitude norte,
acima do fálico o omphalus,
redondo e estufado, o meu, mein Nabel,
o que sobrou do cordon ombilical caído
que ligava-me ao mundo, aos ancestrais,
para que eu me soltasse todo orgulhoso,
crendo-me fielmente no epicentro das órbitas
a razão final da existência do mundo,
o ápice da geração, criação, evolução,
e mio ombligo cavaleiro-andante
a lutar bravamente contra moinhos-gigantes
e mio ombelico, personagem à procura
de um Autor dedicado e atencioso,
e mon ombilic a percorrer mil léguas
acima dos telhados e no fundo dos porões
e mein Nabel arrogante e prussiano
proclamando a aristocracia lírica
e my navel britanicamente ensaboado
e cumpridor de deveres e horários.
O umbilicum mundi que carrego
na estética pele de cosméticos
lascivamente acima das entranhas
anatomicamente exposto à altura abdominal
entre estômago e alça superior intestinal
assim exibido, desnudo, tatuado
por mil piercings perfurado,
verdadeiro nombril du monde,
pululando de imodéstia e orgulho
em aristocrática rebeldia
acusando os falsos democratas,
os demagogos populistas, os plebeus
exaltados em sound and fury,
dizendo nada além da mesmice,
enquanto o meu Omphalus se cala,
altaneiro, Übermensch, hiperbóreo,
um condor a voejar acima da fuligem,
do fog londrino do lugar-comum
a névoa opaca do senso-comum
meu umbilicum mundi pregando ordem,
positivista, Ordnung et Progress,
atacando bruxinhos e duendes,
figuras mitológicas e santarrões públicos,
pastores conduzindo suas ovelhas,
queimando fotos de presidenciáveis,
santinhos de corruptos em reeleição,
pseudo-revolucionários de plantão!
Meu umbilicum mundi solitário
desdenhando as seduções de outdoors,
as mulheres pintadas em liquidação
os homens de academia malhação,
ignorando as promoções do mercado,
as putas glamourosas de aluguel,
as garotas-sorriso da propaganda,
recusando os amores de silicone,
tímido perseguidor de donzelas,
o nobre devoto de Musas,
amando ardentemente uma musa
por meros seis meses breves
e nutrindo uma mágoa louca
pelo resto da pobre existência!
Meu umbilicum mundi literato
esnobando os fiéis leitores
mas sempre esperando atenção
zombando das nossas autoridades
mas sempre exigindo Ordem
cortejando a Esquerda e suas críticas
mas respeitando a Direita e suas crueldades
evitando discutir religião, futebol,
música, opção sexual, estéticas,
política partidária, corrupção endêmica,
decadência familiar, taxa de juros,
as mentiras do jornal nacional!
Meu umbilicum mundi sempre na ativa
em qualquer voz passiva
admirando as babéis de palavras,
os clássicos, os bardos, as rimas,
os arquitetos de poemas,
os fabricantes de mundos,
os fabulistas e mentirosos compulsivos;
invejando poliglotas, estudantes,
diplomatas, funcionários públicos,
professores, oradores, doutores!
Meu umbilicum mundi do contra
ironizando milícias, rebeldes,
os marxistas de carteirinha,
os fascistas saudosistas;
desprezando pastores, clérigos,
condutores de almas, curadores;
afastando aduladores e sorrisos,
iconoclastas depressivos,
irônicos soturnos, pretensiosos,
vampiros pós-modernos,
niilistas em torres de marfim!
Meu umbilicum mundi falastrão,
tecendo fanfarronices em manifestos,
cartas abertas e leituras atentas,
invocando os últimos bárbaros
para a última invasão do Império
quando a TV estiver desligada
quando a programação sair do ar
e os exércitos de desocupados,
subempregados, alienados,
explorados, dominados,
embriagados, drogados,
doutrinados, humilhados,
se unirem na cova comum
do fim sangrento das Utopias
na cova comum do omphalus,
o centro profundo do meu umbigo!

Jun/09

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com/