26 de set de 2007

André Carneiro (1922)

"Não tenho gravata.
O último bigode raspei
em 1º de abril de 64.
Darcy menina, inventora da mini-saia
ficou com as crianças,
eu fugi na subversiva perua Volksvagem."
.
"(...)
seus poemas são construídos arquiteturalmente,
num equilíbrio de verbalismo e emoção"
(Ferreira Gullar)
"Seu poder de comunicação chega a ser
contundente, fere mais do que a sensibilidade à flor da pele"
(Cassiano Ricardo)
"Uma continuidade modelar do Modernismo
numa renovada e luminosa expressão"
(Oswald de Andrade)
.
O poeta André Carneiro conheci através de um artigo publicado na antiga e boa revista Planeta – o referido artigo, vinha assinado pelo então articulista, Paulo Urban, que mais tarde, veio a se tornar meu amigo. O Paulo ficou de apresentar-me ao André, mas ainda não conseguimos acertar nossas agendas para visitarmos o poeta, que atualmente reside em Curitiba. Avião? No Brasil? Eu? Vôo, não. Só voo, sem acento (em acordo, com as futuras regras do português - rsrs) e sem assentar em nenhuma cadeira da invenção de meu conterrâneo. Pois é, só voo; assim, ligeiro-rasteirinho e a pé, ou; no trem-bão-que-é-voar-além, na poesia capturada pelas antenas do André.

Informo aos leitores e plantadores do Árvore dos Poemas, que André Carneiro foi o primeiro fruto-poema, que plantei na primeira Árvore dos Poemas lá em casa. E foi essa árvore, que inspirou a criação deste nosso blog, que segue de vento, novas-folhas e frutos-poemas a cada semana aqui no mundo virtual.

André Carneiro com vocês - um dos poetas, que agita meus neurônios, sopra-me ventanias inéditas e literalmente arrepia, os cabelos do meu pensamento.
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ONDAS QUÂNTICAS

O universo só existe
quando observo.
Lento vôo da asa,
teu andar de praia,
a nuvem gorda de água,
desaparecem,
se eu falho.

Penso, algo atravessa
e molda um fato.
O espelho me inventa,
a ruga não sou eu quem traço.

Comprimo o corpo de átomos,
entro nos túneis do mundo
e passo.
Você sorri,
não acredita no inseto dourado
quando eu pouso na face.

Energias quânticas
modelam seios e braços.
Retrato não reconheço,
linhas do rosto, corpo e vontade desmancho,
teço de novo, sou co-autor
sem nenhum quadro.

Explico o momento,
A nave tomba,
gotas translúcidas
giram prótons e nêutrons
neste céu de maio.

Sorriso de cinema vale
vinte e quatro passos
por segundo, o planeta gira
completamente tonto.
Dentro deste verso
sua boca muda,
desliso de skate
no suave das nádegas,
aqueço veias
no ouro caminho do ventre.

A pequena morte pulveriza
meu corpo imortal,
o beijo solda lábios,
só a memória falece.

André Carneiro in Exemplos do Insondável, 1990
.
ESTADO DE ALMA

Encontrei-me com Kafka
nos corredores da justiça.
Ele folheava os compêndios do processo,
eu aguardava o arquivista
enquanto treinava o jeito
de peitar o funcionário.
Peitar (informo para os jovens),
é suborno, chave falsa
para entrar no castelo.
Tenho gavetas cheias de letras,
selos, carimbos,
e os números tatuados no peito,
o telefone ao meu lado
querendo saltar de alegria
ao interurbano que ainda não veio.
De papéis escritos tenho vivido,
um pouco traídos pelo micro.
Quando falo, escrevo um manuscrito
na testa alheia.
Perdido em Kreutzlingen,
me respondiam em dialeto,
eu fazia gestos inúteis,
até um policial de bicicleta
me tomar o passaporte
a recitar alemães filósofos.
Fui índio no Arizona,
pária estrangeiro em toda a parte,
até aqui na fila do restaurante classe média.
Tenho lindas camisas usadas,
calças e sapatos ganhos
de amigos afortunados.
Saqueei lixo em Nova York,
onde achei a mala de náilon
e um telefone vermelho.
O que faço nesta tarde de maio?
(certo é manhã de abril)
mas a poesia é relatório cifrado
para alienígenas do espaço,
a verdade é um susto atrás das letras.
É bom meu estado de alma.
O sol resplandece nos buracos ozônicos,
tenho minha amiga barata
a conversar pelas antenas,
histórias em quadrinhos francesas
e Ulisses com castigo.
Talvez até responda cartas postergadas de Agosto,
(para ser exato: janeiro).
O telefone repousa, depois de um recado perfeito.
A música de fundo vai em um crescendo, até o beijo.
Fins felizes duram segundos.
No acetato deste poema escrevo "The End"
e saio do cinema de mãos dadas.

André Carneiro, in Virtual Realidade, 1992
.
EU ESCAPO

Não tenho gravata,
o último bigode raspei em primeiro de abril
de sessenta e quatro.
Darcy menina, inventora da mini-saia
ficou com as crianças, eu fugi
na subversiva perua Volkswagem.
Tenho pudor de ser poeta,
prefiro escritor, cineasta, hipnotizador emérito,
palavras nem explicam
a economia doméstica,
amordaçam lágrimas ditas femininas,
derramadas pelo sexo másculo.
Há sempre um atrás nos versos
a libertar rostos, mostrar pegadas viscosas
em direção ao seu quarto.
Minhas balas nunca explodiram,
a navalhada espanhola é barbeador elétrico.
Tento ser eclético, abarcar o continente.
Fui Navajo no Arizona,
joguei poker em cartas marcadas,
dou nó em pespontos,
lavo louça sem nenhum interesse.
De onde surgem estas formigas minúsculas?
Deus displicente, esmago-as sem pena,
almas sem micróbios e baratas são desprezíveis.
Do satélite, só avisto a muralha da China
e a floresta amazônica em chamas.
Meu carro tem pontos de ferrugem,
o aço se transforma em marrons abstratos,
alguns botões da camisa fecham ao contrário,
marca feminina do contraste.
Sigo cego o rumo coletivo deste ônibus.
Passam cenhos cerrados,
proíbem beijar de língua nas bibliotecas,
trocar roupas nos alpendres,
casar filhas com negros,
gargalhar no tribunal togado.
A morte vai batendo de porta em porta,
vendendo bilhetes irrecusáveis
aos guardiães da sociedade.
Eu me escondo no banheiro,
disfarço lendo histórias em quadrinhos
e escapo.

André Carneiro in Exemplos do Insondável, 1990.
.
RETRATO DA TERRA

"Parapsicologia legalizou fantasmas,
futuro se tornou presente.
Discos telegrafam que não estamos sós.
E o livre arbítrio,
eternidade do céu e do inferno?

Telequinésia, isótopos, biônica,
cartas Zenner,
cibernética.
Radar acaricia
uma neblina fria
no corpo de Vênus.
Crianças brincam de faz-de-conta,
telescópios provocam as estrelas.

(...) Ano dois mil
fim do mundo.
E os olhos
claros, frios,
do microscópio?

Escrevo um poema.
Na última edição,
crime do punhal,
previsão, tempo duvidoso.

À noite o sono nos recarrega.
Manhã, entre milhões,
calçamos os sapatos,
recomeçamos as tarefas."
de Espaçopleno, 1966
.
QUANTICA REALIDADE
.
Na pequena morte
ressuscito o mundo estranho
da minha cabeça.
Sou o mandarim no sonho da borboleta.
Vivo a irrealidade dos fatos
sem a memória acordada.
Neste próximo milênio
faço 15 bilhões de anos.
Ainda tenho na ponta do dedo
um átomo girando do big-bang.
A cobra,
desesperada
com a falta dos braços,
abraça Eva com o corpo inteiro.
Os avós peixes não se lembram
quando saíram da água.
Não há mais opostos:
real e imaginário,
passado e futuro,
vida e morte.
As palavras caíram
no lago global do esquecimento,
a quântica relatividade dança conosco
no espaço curvo deste planeta redondo.

do ainda inédito Asas da Sobrevivência
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Contato do André Carneiro é andrecarneiro77@hotmail.com
Agradeço a amiga sempre atenciosa Valéria c, pela arte desta postagem.
Mais sobre André Carneiro - fartem-se aqui com meu amigo de alma Paulo Urban. Conheça aqui, a revista Nova Consciência, da qual o Paulo é o editor.

20 de set de 2007

poesia concreta

Sem forma revolucionária não há arte revolucionária.”
Vladimir Maiakóvski

Pois então leitores da árvore dos poemas, resolvi postar não apenas um poeta, como fizeram os demais plantadores. Mas sim postar sobre Poesia Concreta, e não há como falar de poesia concreta sem falar em Décio Pignatari(1927), Haroldo(1929 - 2003) e Augusto de Campos(1931), os poetas & teóricos da Poesia Concreta.
Fui apresentado a Poesia Concreta por uma grande Professora de Literatura, que não só me ensinou Literatura como também arte e amizade...
Depois tive outros contatos com a Poesia Concreta, e sou sim, um fã dos concretos ou concretistas. Os poetas de campos e espaços que Caetano Veloso viu surgir, estes mesmos poetas que Paulo Leminski se referia como sendo os Patriarcas em correspondências com Regis Bonvincino.
Um dos objetivos interessantes da Poesia Concreta é o Projeto Verbovocovisual, onde verbal, sonoro e visual se igualassem. O poema não é apenas linguagem verbal, mas também linguagens não-verbais, o que aproximou muito os poetas do concretismo das artes plásticas e da música...
A Poesia Concreta nasceu nos anos 50 com o Grupo Noigandres formado por Décio Pignatari e os irmãos Campos, Augusto e Haroldo. Foi lançada oficialmente em 1956 na Exposição Nacional de Arte Concreta. Alguns poetas aderiram ao movimento, como José Lino Grünewald, Ronaldo Azeredo e Ferreira Gullar, este último abandonandonou a Poesia Concreta e foi um dos fundadores do Neoconcreto. A Poesia Concreta influenciou artistas como Lenora de Barros, Caetano Veloso em fase Tropicália, Arnaldo Antunes entre outros artistas. Influenciou também publicidade e artes plásticas.
Décio, Haroldo e Augusto indicaram como precursores da Poesia Concreta Sthéphane Mallármé, Ezra Pound, James Joyce, e. e. cummings e no Brasil João Cabral de Melo Neto e Oswald de Andrade.
Esta semana, eu deixo vocês em companhia da Poesia Concreta, boas leituras...
Pedro Pan






"beba coca cola" de Décio Pignatari, "fome de forma" de Haroldo de Campos




















"quasar" de augusto de campos, décio pignatari



"pós-soneto" e "dias dias dias" de augusto de campos













"Crisantempo" de Haroldo de Campos.

Deixo a sugestão dos seguintes sítios:
Haroldo de Campos, oficial
Augusto de Campos, oficial
Poesia Concreta - projeto verbivocovisual
Revista Discutindo Literatura, matéria sobre Poesia concreta
Vale ressaltar que Décio não possui sítio.
Imagens da Internet.

12 de set de 2007

Pablo Neruda (1904-1973)

Para minha primeira contribuição nesta querida árvore trago uma das minhas primeiras paixões na poesia: Pablo Neruda.

Há uns 10 anos atrás assisti ao filme "O carteiro e o poeta" (do diretor Michael Radford) e imediatamente me apaixonei. Pelo filme e pelo Poeta. Pablo Neruda nasceu no Chile, mas sua poesia não pertence ao Chile. Sua poesia é universal. E assim como o carteiro do filme, eu escrevi bilhetinhos de amor com seus poemas (nunca os mandei, mas isso já é outra história), e como o amor é um sentimento inerente a nós, humanos de carne, osso e coração, é muito fácil se identificar com a poesia de Neruda. Mas Neruda não é só amor. Ele também é solidão. Ele também é político. Ele também é cotidiano. Sua poesia é gostosa de se ler em voz alta. Sua poesia é gostosa de se ler à sombra de uma árvore...

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Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

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Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

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Walking Around

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.

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Perguntaram o que acontecerá com a poesia no ano 2000.
É uma pergunta difícil. Se esta pergunta me assaltasse
num beco escuro me levaria um susto de pai e senhor meu.
Porque, o que sei eu do ano 2000? Do que estou seguro é
de que não se celebrará o funeral da poesia no próximo
século.
Em cada época deram por morta a poesia, mas ela se
vem demonstrando vitalícia, ressuscita com grande
intensidade, parece ser eterna.
A poesia acompanhou os agonizantes e estancou as dores,
conduziu às vitórias, acompanhou os solitários,
foi ardente como fogo, ligeira e fresca como a neve,
teve mãos, dedos e punhos, teve brotos como a primavera:
fincou raízes no coração do homem.


------------ Pablo Neruda ------------


3 de set de 2007

Sophia de Mello Breyner

Sophia de Mello (1919 - 2004) foi sem dúvidas uma das poetisas lusitanas do século XX - XXI, que emociona até hoje pela força da palavra. Sophia fez da palavra um outro viver no mundo, uma forma alternativa de vivenciar cada experiência e devolver a este mesmo mundo sua impressão, mas não uma impressão rasa. Seu olhar era o daqueles que sempre vêem o além da superfície. Não era um olhar perdido no horizonte, era um olhar abissal, que buscava sempre as camadas abaixo, para expôr a vida aos que têm os olhos desavisados.

Ela me emociona e é tudo que digo dela. Biografias existem espalhadas por aí, mas não quero antecipá-la pela sua vida como mulher comum, que completou seu ciclo. Nascer, viver e morrer é comum a todos. Deixo para vocês sua poesia, que esta sim quebra qualquer lógica do tempo e permanece.

Janaína Calaça.

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As pessoas sensíveis


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

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A pequena praça


A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça
Naquele Outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti


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A hora da partida


A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

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Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

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Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada


(Sophia de Mello Breyner)