10 de ago. de 2007

Emílio Moura (1902-1971)

Batizado por Paulo Mendes Campos de “andarilho do Velho Testamento”, Emilio Moura ostenta uma Poesia assinalada pelo transcendental. Nos dizeres de Fábio Lucas, responsável pela compilação de poemas que integram a obra “poesia de Emílio Moura”, lançada pela Art Editora, em 1991, seus versos revelam “ao mesmo tempo, indagação do universo, busca do outro e descoberta de si”.
Em entrevista feita pelo jornal “o Binômio”, em 1961, Emílio declarou expressamente que “não cabe ao poeta definir a sua Poesia: esta é que o define”.
Pois então, venhamos e convenhamos, se ele mesmo se eximiu de explicar sua obra, quem sou eu pra saber mais que o poeta sobre os frutos de suas próprias mãos? Mesmo porque, sou um humilde adepto desta opinião dele, a de que não cabe ao poeta justificar-se, pois a arte tem vida própria e reverbera sempre de uma maneira diferente em cada poeta-leitor.
Pois bem, deixemos de prosa, porque o que interessa debaixo da copa frondosa desta Árvore é colher a Poesia mais madura. O que importa é saber o sabor desta Árvore da vida.
Acredito esperançosamente que, mais que agradáveis descobertas, a Árvore dos Poemas também haverá de nos proporcionar a redescoberta de muitos nomes notáveis que tantas vezes têm passado despercebidos, empoeirados pelo descaso ou vulgarizados.
Fico por aqui, então, e deixo três das inumeráveis preciosidades literárias do poeta Emílio, este memorável mineiro de Dores do Indaiá. Aliás, é realmente impressionante como Minas sempre esteve bem servida de poetas resplandecentes...
Saudações a todos, e que a Poesia esteja sempre em nossos corações, “apesar de tudo”!

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Permanência da poesia

Quando a luz desaparecer de todo,
Mergulharei em mim mesmo e te procurarei lá dentro.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.
Elas subsistem, apesar de tudo.

É inútil assassinar crianças. É inútil atirar aos cães os que,
de repente, se rebelam e erguem a cabeça olímpica.
A beleza é eterna. A Poesia é eterna. A liberdade é eterna.
Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida.

As horas passam, os homens caem,
A poesia fica.

Aproxima-te e escuta.
Há uma voz na noite!

Olha:
É uma luz na noite!

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Libertação

Quando a multidão, que há de chegar, estiver toda, toda, nas ruas,
Ninguém mais se preocupará com o fio inquieto ou torturado de
meus pensamentos.
O meu vulto não projetará nenhuma sombra ao redor de mim.
Ninguém procurará entender, ninguém!
Certamente o sentido de minha derrota há de pairar como um
signo trágico sobre a cabeça de cada um deles,
mas será também como um signo inútil em que ninguém atenta.
Ah! então eu serei livre, livre,
e, antes de mim, como depois de mim, todos os mistérios
poderão permanecer invioláveis.

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Poema

Já não olhamos para o alto,
nem para baixo.
Vivemos sob a terra, almas subterrâneas, vozes sem eco.

Entretanto existes.
Sentimos que existes, mas é inútil,
e, insensíveis, nos calamos.
Já não temos braços, nem pernas.
Já perdemos a graça de compreender o que nos poria de novo,
sob o Teu signo.
Mergulhados no tempo, em vão queremos descobrir onde nos
abandonaste.
Estrela solitária, navegas num céu indecifrável que ninguém
atinge.
Só os poetas Te reconhecem.
Só as crianças é que ainda Te procuram como se tivessem asas.
A eternidade Te revelou quando ainda não havia noite.
A eternidade Te conservará até que a última noite desapareça.


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crédito/imagem: http://emiliomoura.br.tripod.com/

1 de ago. de 2007

Ana Cristina César (1952 - 1983)

Noite Carioca
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

...
Minhas primeiras mal-traçadas por aqui é sobre uma poeta. Uma, como ela dizia, “mulher do século 19, disfarçada em século 20”. Uma poeta que viveu como quem despede a raiva de ter visto, e que, por isso, demitiu-se de seu viver esperando, talvez, que a morte lhe pudesse ser – oxalá tenha sido – um descanso calmo e doce, um doce e calmo descanso. Estou falando de Ana Cristina Cruz César. Ana Cristina César para alguns, ou simplesmente Ana C., para outros. Conheci a sua poesia em 1984. Estudava meu primeiro ano de faculdade na Unesp, no campus de Marília (SP). Estávamos em greve e havíamos invadido o prédio da reitoria em São Paulo e os de alguns campus – entre eles, o de Marília. A situação era mais ou menos tensa. Havia a possibilidade de a polícia invadir o campus para retirar-nos. Eu estava sendo um dos acusados de ter cometido um ato de violência contra uma professora contrária às nossas reivindicações estudantis: ter destruído o seu material de estudos e pesquisas com a espuma de um extintor de incêndio. Não havia sequer sido favorável a esse ato lamentável, mas, por injunções, tinha de manter uma certa ambigüidade. Havia a acusação, os depoimentos e até um possível processo. O píncaro da caceteação! Numa dessas noites, Tatau (um poeta concretista, aluno de filosofia) entregou-me uns papéis mimeografados. Pediu que eu os lesse. Segundo ele, iriam me fazer bem Eram poemas de Ana Cristina César. E eu li. E ainda leio-os. Como se fossem uma luta que encarcera o último apelo que intimida. Como uma semente poética. Como confidências de um ancião enquanto o entardecer reza. Ou, melhor ainda, como uma nesga súbita que eu vi. Ou que eu li. Hora de sua poesia:
.
Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
na gengivas.
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Acreditei que se amasse de novo
Esqueceria outros
Pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
Organizei a memória em alfabetos
Como quem conta carneiros e amansa
No entanto flanco aberto não esqueço
E amo em ti os outros rostos.
(em Contagem regressiva – Inédidos e dispersos)
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A PONTO DE PARTIR
A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.

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UM BEIJO
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor.

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Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
Com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
Transar aos 45 anos
Entretanto sou moça
Estreando um bico fino que anda feio,
Pisa mais que deve,
Me leva indesejável pra perto das
Botas pretas
Pudera.
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ESTE LIVRO
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
Coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
Total tilintar de verdade que você seduz,
Charmeur volante pela posta, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

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TRECHOS DE POEMAS DO LIVRO INÉDITOS E DISPERSOS:

Esvoaça... Esvoaça... "É como a vela que se apaga, E a fumaça sobe e se atenua. É o amor fraco que se apaga, Não adiantam poemas para a lua.
Sofre o homem, o amor acaba E a doce influência esvoaça Como o fio adelgaçado De fina e translúcida fumaça Esvoaça, esvoaça... Atenua o amor, Atenua a fumaça. Para que tanta dor? E o amor que vai sumindo, Adelgaça, esvoaça, esvoaça... (maio/1963)
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Cultivado por Marcos Pardim, com uns pitacos meus - Diovvani Mendonça, na seleção dos poemas. Peço desculpas ao amigo Marcos – é que o universo da Ana Cristina, é tão rico e gosto tanto de seus poemas, que não resisti e inseri na postagem, mais algumas palavras dela. Acredito que de agora em diante, as postagens dos plantadores pegarão o ritmo semanal proposto.